O Kit do Governante

Analisemos então o caso do Dr. Siza. O Dr. Costa convidou o Dr. Siza para ir a ministro. E, na véspera de assumir funções, de entre todas as coisas que podia ter feito, o Dr. Siza decidiu constituir uma imobiliária. A constituição da imobiliária está para a função de ministro como a despedida de solteira está para a noiva.

Que maluquices não podes fazer depois de casada? Pois isso. Aproveita os últimos momentos de liberdade e não faças prisioneiros. O malandreco do Dr. Siza , em vez de ir para os copos, foi constituir a imobiliária antes que se fizesse tarde. A noiva vai com as amigas para a ramboia. O Dr. Siza foi ao notário. Aliás, o bardina deve ter aparecido na tomada de posse ainda cheio de olheiras e atafulhado de Guronsans. Constituir uma imobiliária no dia imediatamente antes de ir a ministro é capaz de ser a preocupação de nove governantes em cada dez, não acham? E o décimo é o Eng. Sócrates que preferiu deslocar-se à Suiça para abrir uma conta com vista para o Lago de Genebra. Vamos lá ver. Um tipo pode aproveitar a véspera de ir a ministro para comprar uns fatos e uns sapatos para ficar composto nas fotografias. Pode almoçar com a família. Pode dormir. Pode fazer um levantamento de raízes, mas pronto, aí dou de barato porque é preciso ter cabelo. Pode pôr unhas de gel. Pode fazer um envolvimento em algas ou um tratamento de vinoterapia com polifenóis de uva e antioxidantes para combater os radicais livres. Pode inscrever-se num ginásio para não parecer mal ao lado do espadaúdo Dr. Costa. Mas não. O Dr. Siza decidiu passar aquela tarde, pasme-se, a constituir uma imobiliária. Estou a imaginar a conversa do Dr. Siza com a mãe. Mãe, o Costa convidou-me para ministro. Tá bem, filho. Alimenta-te, leva um casaquinho, lava os dentes, não fales com desconhecidos e constitui uma imobiliária. E quando vierem cá a casa pede à Laurinha que traga o tupperware onde levou os croquetes. Tá bem, mãe. E tem cuidado com as más companhias. Tá bem, mãe. Por falar em más companhias, o Dr. Costa é que não está para brincadeiras. Com o Dr. Costa não fazem farinha. Com o Dr. Costa ninguém põe o pé em ramo verde. O Dr. Costa impõe um elevado padrão de conduta aos colaboradores. O Dr. Costa lidera pelo exemplo. Em concreto, o Dr. Costa, inflexível, deu um murro na mesa e exigiu a demissão do Dr. Siza, perdão, do Lopetegui. Isso. A demissão do Lopetegui da Selecção de Espanha. E a elaboração de uma check-list. Isto porque o Dr. Siza não sabia dessa coisa das incompatibilidades. O desconhecimento da lei não aproveita ao cidadão comum mas é invocável a favor dos causídicos amigos do Dr. Costa. O Dr. Siza não sabia e não é por acaso que dizem que a ignorância é atrevida. Em todo o caso, é bom lembrar que a check-list não é a primeira iniciativa do género. Já antes o governo tinha dado ao mundo um Código de Conduta, indispensável para os governantes perceberem que não podem ir à bola com entidades com quem o Estado está em litígio por centenas de milhões de euros. Dá ideia que isto é como no “Velocidade Furiosa”. Depois do Código e da check-list virão mais meia-dúzia de sequelas. Ou me engano muito ou ainda teremos o guia, o inventário, a relação, a tabela e o rol. Apesar disso, a verdade é que estes instrumentos serão sempre insuficientes. O Dr. Costa devia começar pelo princípio: entregar aos ministros os Dez Mandamentos. Ah e tal que estou a exagerar. Não estou. Ora vejamos. Não roubarás, por exemplo. Olhando para a história recente, tinha sido útil ou não que certos governantes soubessem que não é conveniente andar na gatunice? Tinha, claro. Não levantarás falso testemunho. Quantos erros de percepção mútuos se tinham evitado com o não levantarás falso testemunho, não é Dr. Centeno? Pois é. Não cobiçarás a mulher do próximo. Nem a filha, nem o sobrinho, nem a cunhada, nem o avô que este governo é como se fosse uma família. Se um ministro mais atrevidote fizer olhinhos à ministra Vitorino, consorte do ministro Cabrita, como é que ficamos? E se uma secretária de estado sentir uma súbita atracção pela secretária de Estado Mariana Vieira da Silva, filha do ministro António José com os mesmos apelidos, como é que é? Sem o não cobiçarás um dia destes o Conselho de Ministros ainda nos acaba em tragédia. E é melhor não arriscar, até porque o seguro morreu de velho. Salvo, claro, se estivermos a falar do saudoso Dr. Tozé que, como se sabe, faleceu de uma corrente de ar provocada por uma punhalada nas costas. Tudo somado, o ideal era mesmo oferecer aos membros do Executivo um Kit do Governante. Com uma pen-drive, uma caneca, um diploma de licenciatura (não vá o Diabo tecê-las), um repelente de insectos e um ancinho para roçar mato naqueles dias em que o Dr. Costa vai à floresta de helicóptero, os Dez Mandamentos, um Código de Conduta, uma check-list, dez bilhetes para a Bancada Vip do Estádio da Luz e uma camisola do Benfica autografada pelo Luisão. E depois, com alguns artigos personalizados em função de necessidades específicas de cada governante. Para o próprio Dr. Costa, por exemplo, uma Gramática Elementar da Língua Portuguesa, um Prontuário Ortográfico, toalhetes para limpar o suor da testa e um voucher para umas férias nas Baleares. Aliás, é uma pena que esta coisa da entrega do Kit do Governante logo no início de funções não nos tenha ocorrido antes. Se o Eng. Sócrates tivesse recebido um Código Penal quando foi a primeiro-ministro estou em crer que se tinha poupado muita chatice.

 

Da edição nº 3 do Dia 15

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